{"id":25957,"date":"2013-02-05T17:25:00","date_gmt":"2013-02-05T16:25:00","guid":{"rendered":"http:\/\/rinf.com\/alt-news\/?guid=34395fa580d77fa48ded6b61e5951f79"},"modified":"2013-02-05T17:25:00","modified_gmt":"2013-02-05T16:25:00","slug":"sobre-homofobia-fidel-sempre-assumiu-responsabilidades-diz-mariela-castro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rinf.com\/alt-news\/breaking-news\/sobre-homofobia-fidel-sempre-assumiu-responsabilidades-diz-mariela-castro\/","title":{"rendered":"Sobre homofobia, Fidel sempre assumiu responsabilidades, diz Mariela Castro"},"content":{"rendered":"<div>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"360\" height=\"240\" src=\"http:\/\/www.globalresearch.ca\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/Mariela-Castro-Esp%C3%ADn.jpg\" class=\"attachment-single-post-thumbnail wp-post-image\" alt=\"Mariela Castro Esp\u00c3\u00adn\" title=\"Mariela Castro Esp\u00c3\u00adn\" \/><\/p>\n<p>Mariela Castro Esp\u00c3\u00adn conseguiu se libertar da heran\u00c3\u00a7a familiar. Sobrinha de Fidel Castro, l\u00c3\u00adder hist\u00c3\u00b3rico da Revolu\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o Cubana, e filha de Ra\u00c3\u00bal Castro, atual presidente de Cuba, Mariela ganhou reconhecimento internacional n\u00c3\u00a3o gra\u00c3\u00a7as ao sobrenome, mas sim pela a\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o a favor do direito \u00c3\u00a0 diversidade sexual.<\/p>\n<p>Cubadebate<br \/><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.operamundi.com.br\/media\/images\/mariela.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>Mariela Castro: em Cuba, \u201czombar dos homossexuais era algo normal, assim como depreci\u00c3\u00a1-los ou denegri-los\u201d<\/p>\n<p>Licenciada em Psicologia e Pedagogia, com mestrado em sexualidade, Mariela tornou sua a causa dos homossexuais, bissexuais, l\u00c3\u00a9sbicas e transexuais e possibilitou que essas comunidades sa\u00c3\u00adssem da marginalidade na qual fora colocada pela sociedade, como diretora do Centro de Educa\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o Sexual (Cenesex), cuja atua\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o tem sido coroada com \u00c3\u00aaxitos.<\/p>\n<p>Desde 2007, o dia contra a homofobia \u00c3\u00a9 celebrado em Cuba, em 17 de maio. O Estado se encarrega gratuitamente das opera\u00c3\u00a7\u00c3\u00b5es de mudan\u00c3\u00a7a de sexo. A homofobia diminuiu de forma sens\u00c3\u00advel, apesar de persistir em alguns setores. Finalmente, importantes institui\u00c3\u00a7\u00c3\u00b5es, como o Partido Comunista de Cuba ou o Minist\u00c3\u00a9rio da Cultura, s\u00c3\u00a3o agora aliados de primeira ordem na luta pelos direitos de todos.<\/p>\n<p>Mariela se parece com a m\u00c3\u00a3e, Vilma Esp\u00c3\u00adn. Herdou ao mesmo tempo a beleza natural e o car\u00c3\u00a1ter. De fato, como ilustra a conversa abaixo, deprecia a linguagem estereotipada e n\u00c3\u00a3o vacila em apontar as injusti\u00c3\u00a7as que foram cometidas em Cuba no passado, ou em denunciar os obst\u00c3\u00a1culos institucionais ainda presentes na sociedade. Sua franqueza n\u00c3\u00a3o suscita unanimidade no poder cubano, particularmente no setor mais conservador. Mas, cada vez que Ra\u00c3\u00bal Castro recebe uma queixa a seu respeito, a resposta \u00c3\u00a9 invari\u00c3\u00a1vel: \u201cSe voc\u00c3\u00aa tem algo a dizer sobre a minha filha, v\u00c3\u00a1 procur\u00c3\u00a1-la diretamente\u201d, conta ela. No momento, os cr\u00c3\u00adticos n\u00c3\u00a3o arrefeceram.<\/p>\n<p>Al\u00c3\u00a9m de n\u00c3\u00a3o evitar nenhuma pergunta, Mariela n\u00c3\u00a3o imp\u00c3\u00b4s condi\u00c3\u00a7\u00c3\u00b5es pr\u00c3\u00a9vias \u00c3\u00a0 entrevista, dividida em quatro partes. Na primeira parte do di\u00c3\u00a1logo , aborda temas como a situa\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o dos homossexuais ap\u00c3\u00b3s o triunfo da Revolu\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o, as tristemente c\u00c3\u00a9lebres Unidades Militares de Ajuda \u00c3\u00a0 Produ\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o, o famoso \u201cQuinqu\u00c3\u00aanio Cinza\u201d, a Funda\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o do Cenesex, a luta contra a homofobia, a prostitui\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o, o fen\u00c3\u00b4meno transexual ou o casamento para todos.<\/p>\n<p><strong>Opera Mundi: Qual era a situa\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o das minorias sexuais em 1959, ap\u00c3\u00b3s o triunfo da Revolu\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o em Cuba?<\/strong><br \/>Mariela Castro Esp\u00c3\u00adn: No in\u00c3\u00adcio dos anos 1960, a sociedade cubana era o reflexo de sua heran\u00c3\u00a7a cultural, principalmente espanhola. Cuba tinha uma cultura \u201chomoer\u00c3\u00b3tica\u201d, patriarcal e, portanto, homof\u00c3\u00b3bica. Naquela \u00c3\u00a9poca, o mundo inteiro era patriarcal e homof\u00c3\u00b3bico, tanto os pa\u00c3\u00adses desenvolvidos como as na\u00c3\u00a7\u00c3\u00b5es do Terceiro Mundo. Em todas as culturas ocidentais baseadas na religi\u00c3\u00a3o cat\u00c3\u00b3lica dominante essas caracter\u00c3\u00adsticas estavam estabelecidas nos c\u00c3\u00b3digos culturais da rela\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o homem\/mulher.<\/p>\n<p>No entanto, \u00c3\u00a9 curioso que o processo da Revolu\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o Cubana, em cujo programa pol\u00c3\u00adtico se reivindicava a luta contra desigualdades, racismo e diferentes formas de discrimina\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o contra mulheres, al\u00c3\u00a9m do fim de injusti\u00c3\u00a7as e brechas entre a cidade e o campo, n\u00c3\u00a3o tenha se interessado pelos homossexuais e os considerado v\u00c3\u00adtimas de discrimina\u00c3\u00a7\u00c3\u00b5es de todos os tipos. A homofobia era a regra inclusive depois do triunfo da Revolu\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o.<\/p>\n<p><strong>OM: Ent\u00c3\u00a3o ser homof\u00c3\u00b3bico era algo \u201cnatural\u201d?<\/strong><br \/>MCE: A homofobia era a regra. O que se considerava anormal era o respeito a quem havia escolhido uma orienta\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o sexual diferente. Mas, repito, n\u00c3\u00a3o era algo espec\u00c3\u00adfico de Cuba. A homofobia institucionalizada dos primeiros anos da Revolu\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o refletia essa realidade e estava em conson\u00c3\u00a2ncia com a cultura da \u00c3\u00a9poca. Zombar dos homossexuais era algo normal, assim como depreci\u00c3\u00a1-los ou denegri-los. Era normal discrimin\u00c3\u00a1-los no mercado de trabalho, em sua vida profissional, e esse era o aspecto mais grave.<\/p>\n<p>A Revolu\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o permitiu ao povo cubano conseguir a soberania nacional e colocou em xeque in\u00c3\u00bameros paradigmas, como a virgindade da mulher como condi\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o pr\u00c3\u00a9via ao casamento, a aus\u00c3\u00aancia do div\u00c3\u00b3rcio, o status do homem como chefe da fam\u00c3\u00adlia, a fidelidade natural da mulher frente \u00c3\u00a0 infidelidade do homem, a desqualifica\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o da fam\u00c3\u00adlia monoparental e da mulher solteira, mas n\u00c3\u00a3o se interessou pelo problema da diversidade sexual.<\/p>\n<p><strong>OM: Entre 1965 e 1968, o Estado Cubano elaborou as Unidades Militares de Ajuda \u00c3\u00a0 Produ\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o, as Umap, \u00c3\u00a0s quais os homossexuais foram integrados \u00c3\u00a0 for\u00c3\u00a7a. Voc\u00c3\u00aa poderia falar sobre esse obscuro epis\u00c3\u00b3dio?<\/strong><br \/>MCE: Primeiro, conv\u00c3\u00a9m precisar que as Umap afetavam todos os homens em idade de entrar no servi\u00c3\u00a7o militar, n\u00c3\u00a3o s\u00c3\u00b3 os homossexuais. Alguns, inclusive, falaram de campos de concentra\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o para homossexuais. N\u00c3\u00a3o creio que seja necess\u00c3\u00a1rio exagerar, \u00c3\u00a9 preciso ser fiel \u00c3\u00a0 verdade hist\u00c3\u00b3rica. As Umap afetaram a todo, menos aos que podia justificar [a n\u00c3\u00a3o integra\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o] com um emprego est\u00c3\u00a1vel. Os estudantes tinham que colocar entre par\u00c3\u00aanteses a carreira universit\u00c3\u00a1ria para fazer o servi\u00c3\u00a7o militar.<\/p>\n<p>\u00c3\u2030 interessante tamb\u00c3\u00a9m lembrar o contexto da \u00c3\u00a9poca. Nosso pa\u00c3\u00ads se encontrava constantemente sob a agress\u00c3\u00a3o dos Estados Unidos: a Ba\u00c3\u00ada dos Porcos em abril de 1961, a Crise dos M\u00c3\u00adsseis em 1962, e os grupos da CIA compostos por exilados cubanos, que multiplicavam os atentados terroristas. As bombas explodiam todos os dias em Cuba, queimavam canaviais, sabotavam as ferrovias, atacavam teatros com bazuca. N\u00c3\u00a3o se pode esquecer essa realidade, viv\u00c3\u00adamos em estado de s\u00c3\u00adtio. Grupos paramilitares agiam nas montanhas do Escambray e assassinavam trabalhadores rurais favor\u00c3\u00a1veis \u00c3\u00a0 Revolu\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o, torturavam e executavam jovens professores que tinham se integrado \u00c3\u00a0 campanha de alfabetiza\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o. No total, 3.478 cubanos perderam a vida por conta do terrorismo naquela \u00c3\u00a9poca. Foi um per\u00c3\u00adodo muito dif\u00c3\u00adcil, n\u00c3\u00b3s nos encontr\u00c3\u00a1vamos permanentemente agredidos e a luta de classes estava em seu auge. Os latifundi\u00c3\u00a1rios tinham reagido com muita viol\u00c3\u00aancia \u00c3\u00a0 reforma agr\u00c3\u00a1ria e n\u00c3\u00a3o estavam dispostos a perder sua posi\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o de poder na sociedade. Ent\u00c3\u00a3o havia uma mobiliza\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o geral para a defesa da na\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o, e neste contexto nasceram as Umap.<\/p>\n<p><strong>OM: Ent\u00c3\u00a3o porque as Umap foram associadas ao reino do arbitr\u00c3\u00a1rio e da discrimina\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o?<\/strong><br \/>MCE: Como todos deveriam participar na defesa do pa\u00c3\u00ads, grupos marginais, como os hippies, por exemplo, e os filhos da burguesia que haviam se acostumado com uma vida de \u00c3\u00b3cio e n\u00c3\u00a3o trabalhavam, pois tinham recursos, tiveram que se integrar \u00c3\u00a0s Umap. Grupos que n\u00c3\u00a3o se sentiam comprometidos com o processo de transforma\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o social iniciado em 1959 e preferiam um papel de observador tinham que se integrar e trabalhar nas f\u00c3\u00a1bricas ou na agricultura.<\/p>\n<p>Reprodu\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o<br \/><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.operamundi.com.br\/media\/images\/gays%20cuba.jpg\" alt=\"\" \/>O ex\u00c3\u00a9rcito criou ent\u00c3\u00a3o as Umap para apoiar os processos de produ\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o. Mas a realidade foi outra. O Minist\u00c3\u00a9rio do Interior tinha a tarefa de identificar esses grupos e integr\u00c3\u00a1-los \u00c3\u00a0 for\u00c3\u00a7a, pois o servi\u00c3\u00a7o era obrigat\u00c3\u00b3rio.<\/p>\n<p>Essas pessoas n\u00c3\u00a3o tinham uma boa imagem na sociedade cubana, que os recha\u00c3\u00a7ava por sua falta de comprometimento na constru\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o da nova na\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o revolucion\u00c3\u00a1ria, e os considerava parasitas.<\/p>\n<p>Lembro, em minha juventude, de ouvir reflex\u00c3\u00b5es desagrad\u00c3\u00a1veis devido \u00c3\u00a0 minha rela\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o familiar com meu tio e meu pai. Alguns diziam: \u201c\u00c3\u2030 uma menininha\u201d, quer dizer, uma \u201cfilhinha de papai\u201d, uma pessoa que gozava de uma posi\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o privilegiada, que n\u00c3\u00a3o tinha o mesmo padr\u00c3\u00a3o de vida que o resto por seus v\u00c3\u00adnculos familiares. Eu sentia uma raiva terr\u00c3\u00advel cada vez que isso acontecia e me esfor\u00c3\u00a7ava para fazer tudo o que os demais faziam, recha\u00c3\u00a7ando todo tipo de privil\u00c3\u00a9gio ou de favoritismo. Nunca suportei esse qualificativo, que era muito depreciativo.<\/p>\n<p><strong>OM: Esse m\u00c3\u00a9todo de integra\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o era muito arbitr\u00c3\u00a1rio.<\/strong><br \/>MCE: Conv\u00c3\u00a9m recordar que o procedimento era arbitr\u00c3\u00a1rio e discriminat\u00c3\u00b3rio. Houve vozes na sociedade cubana que se opuseram a essas medidas, entre elas a Federa\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o de Mulheres Cubanas, assim como muitas personalidades. As den\u00c3\u00bancias que algumas m\u00c3\u00a3es fizeram desataram esse movimento contra as Umap.<\/p>\n<p><strong>OM: E os homossexuais? Foram v\u00c3\u00adtimas de muitos abusos nas Umap?<\/strong><br \/>MCE: Em uma sociedade homof\u00c3\u00b3bica, nesse contexto de hegemonia masculina e viril, as autoridades consideraram que os homossexuais sem profiss\u00c3\u00a3o tinham que ser integrados \u00c3\u00a0s Umap para serem verdadeiros \u201chomens\u201d. Em algumas delas, essas pessoas foram tratadas como todos os demais e n\u00c3\u00a3o foram v\u00c3\u00adtimas de discrimina\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o. Em outras, onde reinava a arbitrariedade, eles foram separados injustamente dos demais jovens. Havia ent\u00c3\u00a3o o grupo dos homossexuais e dos travestis, o grupo dos religiosos e dos crentes, o grupo dos hippies, etc. Foi reservado a eles um tratamento especial com chacotas cotidianas e humilha\u00c3\u00a7\u00c3\u00b5es p\u00c3\u00bablicas. Em uma palavra, as discrimina\u00c3\u00a7\u00c3\u00b5es que existiam na sociedade cubana se tornaram mais vivas e mais cru\u00c3\u00a9is nas Umap.<\/p>\n<p>N\u00c3\u00a3o resta a menor d\u00c3\u00bavida de que o processo de cria\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o e de funcionamento das Umap foi arbitr\u00c3\u00a1rio. Por isso, essas unidades foram fechadas definitivamente tr\u00c3\u00aas anos depois. Mas, repito, a situa\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o dos homossexuais no resto do mundo era similar, \u00c3\u00a0s vezes pior. Isso, evidentemente, n\u00c3\u00a3o justifica em nada as discrimina\u00c3\u00a7\u00c3\u00b5es das quais os homossexuais foram v\u00c3\u00adtimas em Cuba.<\/p>\n<p><strong>OM: Qual era a situa\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o das minorias sexuais no resto do mundo?<\/strong><br \/>MCE: H\u00c3\u00a1 um estudo extremamente interessante de um pesquisador norte-americano chamado David Carter sobre os movimentos LGBT na Am\u00c3\u00a9rica Latina e no resto do mundo. Por exemplo, no nosso continente, as ditaduras militares perseguiam impiedosamente os homossexuais. Essa realidade, no entanto, n\u00c3\u00a3o deve nos impedir de analisar criticamente o que ocorreu em Cuba.<\/p>\n<p><strong>OM: Qual foi a responsabilidade de Fidel na cria\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o das Umap?<\/strong><br \/>MCE: Fidel Castro \u00c3\u00a9 como o Quixote. Sempre assumiu suas responsabilidades como l\u00c3\u00adder do processo revolucion\u00c3\u00a1rio. Em raz\u00c3\u00a3o de seu cargo, considera que deve assumir a responsabilidade de tudo o que ocorreu em Cuba, tanto os aspectos positivos como os negativos. \u00c3\u2030 uma posi\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o muito honesta de sua parte, ainda que me pare\u00c3\u00a7a n\u00c3\u00a3o ser justo, pois n\u00c3\u00a3o deve assumir sozinho todos esses excessos, o que n\u00c3\u00a3o aproxima da verdade hist\u00c3\u00b3rica. Era uma \u00c3\u00a9poca na qual emergia uma nova sociedade com a cria\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o de novas institui\u00c3\u00a7\u00c3\u00b5es, em meio a agress\u00c3\u00b5es, trai\u00c3\u00a7\u00c3\u00b5es, amea\u00c3\u00a7as contra sua vida. Fidel foi v\u00c3\u00adtima de mais de 600 tentativas de assassinato. N\u00c3\u00a3o podia cuidar de tudo e, portanto, delegava muitas tarefas.<\/p>\n<p><strong>OM: Concretamente, qual \u00c3\u00a9 o v\u00c3\u00adnculo entre Fidel e as Umap?<\/strong><br \/>MCE: Fidel Castro n\u00c3\u00a3o desempenhou um papel nesta cria\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o. Na realidade, o \u00c3\u00banico v\u00c3\u00adnculo dele com as Umap foi quando decidiu fech\u00c3\u00a1-las, ap\u00c3\u00b3s numerosos protestos da sociedade civil, e a investiga\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o levada a cabo a pela pol\u00c3\u00adtica das For\u00c3\u00a7as Armadas, que concluiu que muitos abusos foram cometidos. A partir dessa data, decidiu-se n\u00c3\u00a3o incluir os homossexuais no servi\u00c3\u00a7o militar para evitar discrimina\u00c3\u00a7\u00c3\u00b5es em uma for\u00c3\u00a7a marcada pela homofobia, n\u00c3\u00a3o apenas em Cuba, mas no resto do mundo. Tamb\u00c3\u00a9m se poder\u00c3\u00a1 argumentar que se tratava de uma nova discrimina\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o em rela\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o a eles, mas sua incorpora\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o \u00c3\u00a0s for\u00c3\u00a7as armadas foi t\u00c3\u00a3o nefasta por conta dos preconceitos, que resultou nessa decis\u00c3\u00a3o.<\/p>\n<p><strong>OM: Qual era o ponto de vista do seu pai?<\/strong><br \/>MCE: Falei muitas vezes sobre esse tema com meu pai e ele me explicou que era extremamente dif\u00c3\u00adcil eliminar os preconceitos sem uma pol\u00c3\u00adtica de educa\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o. Por outro lado, o universo militar continua sendo muito machista em Cuba. Lamentavelmente, \u00c3\u00a9 not\u00c3\u00b3rio que, em nossas sociedades, recha\u00c3\u00a7amos tudo o que se mostra diferente. Imagine ent\u00c3\u00a3o no contexto dos anos 1960. A esse respeito, o Cenesex lan\u00c3\u00a7ou um programa de pesquisa sobre as Umap e estamos recolhendo os testemunhos das pessoas que sofreram com essa pol\u00c3\u00adtica.<\/p>\n<p><em><strong>Leia as outras tr\u00c3\u00aas partes da entrevista:<\/strong><br \/>2: <a href=\"http:\/\/redirect.viglink.com\/?key=11fe087258b6fc0532a5ccfc924805c0&#038;u=http%3A%2F%2Foperamundi.uol.com.br%2Fconteudo%2Fentrevistas%2F26926%2Fpc%2Bera%2Breflexo%2Bda%2Bsociedade%2Bcubana%2Bmachista%2Be%2Bhomofobico%2Bdiz%2Bfilha%2Bde%2Braul.shtml\" onclick=\"javascript:_gaq.push(['_trackEvent','outbound-article','http:\/\/operamundi.uol.com.br\/conteudo\/entrevistas\/26926\/pc+era+reflexo+da+sociedade+cubana+machista+e+homofobico+diz+filha+de+raul.shtml']);\" >\u201cPC era reflexo da sociedade cubana: machista e homof\u00c3\u00b3bico\u201d, diz filha de Ra\u00c3\u00bal<\/a><\/em><br \/><em>3: <a href=\"http:\/\/redirect.viglink.com\/?key=11fe087258b6fc0532a5ccfc924805c0&#038;u=http%3A%2F%2Foperamundi.uol.com.br%2Fconteudo%2Fentrevistas%2F26927%2Fmariela%2Bcastro%2Buma%2Bnacao%2Bsocialista%2Bdeve%2Bdefender%2Ba%2Bigualdade%2Bde%2Btodos.shtml\" onclick=\"javascript:_gaq.push(['_trackEvent','outbound-article','http:\/\/operamundi.uol.com.br\/conteudo\/entrevistas\/26927\/mariela+castro+uma+nacao+socialista+deve+defender+a+igualdade+de+todos.shtml']);\" >Mariela Castro: \u201cuma na\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o socialista deve defender a igualdade de todos\u201d<\/a><\/em><br \/><em>4: <a href=\"http:\/\/redirect.viglink.com\/?key=11fe087258b6fc0532a5ccfc924805c0&#038;u=http%3A%2F%2Foperamundi.uol.com.br%2Fconteudo%2Fentrevistas%2F26928%2Fmariela%2Bcastro%2Bconsenso%2Be%2Bde%2Bque%2Bhomofobia%2Be%2Btransfobia%2Bsao%2Bincoerentes%2Bcom%2Ba%2Brevolucao.shtml\" onclick=\"javascript:_gaq.push(['_trackEvent','outbound-article','http:\/\/operamundi.uol.com.br\/conteudo\/entrevistas\/26928\/mariela+castro+consenso+e+de+que+homofobia+e+transfobia+sao+incoerentes+com+a+revolucao.shtml']);\" >Mariela Castro: consenso \u00c3\u00a9 de que homofobia e \u201ctransfobia\u201d s\u00c3\u00a3o incoerentes com a Revolu\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o<\/a><\/em><\/p>\n<\/div>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/pixel.quantserve.com\/pixel\/p-89EKCgBk8MZdE.gif\" border=\"0\" height=\"1\" width=\"1\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"360\" height=\"240\" src=\"http:\/\/www.globalresearch.ca\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/Mariela-Castro-Esp%C3%ADn.jpg\" alt=\"Mariela Castro Esp&iacute;n\" title=\"Mariela Castro Esp&iacute;n\"\/><\/p>\n<p>Mariela Castro Esp&iacute;n conseguiu se libertar da heran&ccedil;a familiar. Sobrinha de Fidel Castro, l&iacute;der hist&oacute;rico da Revolu&ccedil;&atilde;o Cubana, e filha de Ra&uacute;l Castro, atual presidente de Cuba, Mariela ganhou reconhecimento internacional n&atilde;o gra&ccedil;as ao sobrenome, mas sim pela a&ccedil;&atilde;o a favor do direito &agrave; diversidade sexual.<\/p>\n<p>Cubadebate<br \/><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.operamundi.com.br\/media\/images\/mariela.jpg\" alt=\"\"\/><br \/>Mariela Castro: em Cuba, &ldquo;zombar dos homossexuais era algo normal, assim como depreci&aacute;-los ou denegri-los&rdquo;<\/p>\n<p>Licenciada em Psicologia e Pedagogia, com mestrado em sexualidade, Mariela tornou sua a causa dos homossexuais, bissexuais, l&eacute;sbicas e transexuais e possibilitou que essas comunidades sa&iacute;ssem da marginalidade na qual fora colocada pela sociedade, como diretora do Centro de Educa&ccedil;&atilde;o Sexual (Cenesex), cuja atua&ccedil;&atilde;o tem sido coroada com &ecirc;xitos.<\/p>\n<p>Desde 2007, o dia contra a homofobia &eacute; celebrado em Cuba, em 17 de maio. O Estado se encarrega gratuitamente das opera&ccedil;&otilde;es de mudan&ccedil;a de sexo. A homofobia diminuiu de forma sens&iacute;vel, apesar de persistir em alguns setores. Finalmente, importantes institui&ccedil;&otilde;es, como o Partido Comunista de Cuba ou o Minist&eacute;rio da Cultura, s&atilde;o agora aliados de primeira ordem na luta pelos direitos de todos.<\/p>\n<p>Mariela se parece com a m&atilde;e, Vilma Esp&iacute;n. Herdou ao mesmo tempo a beleza natural e o car&aacute;ter. De fato, como ilustra a conversa abaixo, deprecia a linguagem estereotipada e n&atilde;o vacila em apontar as injusti&ccedil;as que foram cometidas em Cuba no passado, ou em denunciar os obst&aacute;culos institucionais ainda presentes na sociedade. Sua franqueza n&atilde;o suscita unanimidade no poder cubano, particularmente no setor mais conservador. Mas, cada vez que Ra&uacute;l Castro recebe uma queixa a seu respeito, a resposta &eacute; invari&aacute;vel: &ldquo;Se voc&ecirc; tem algo a dizer sobre a minha filha, v&aacute; procur&aacute;-la diretamente&rdquo;, conta ela. No momento, os cr&iacute;ticos n&atilde;o arrefeceram.<\/p>\n<p>Al&eacute;m de n&atilde;o evitar nenhuma pergunta, Mariela n&atilde;o imp&ocirc;s condi&ccedil;&otilde;es pr&eacute;vias &agrave; entrevista, dividida em quatro partes. Na primeira parte do di&aacute;logo , aborda temas como a situa&ccedil;&atilde;o dos homossexuais ap&oacute;s o triunfo da Revolu&ccedil;&atilde;o, as tristemente c&eacute;lebres Unidades Militares de Ajuda &agrave; Produ&ccedil;&atilde;o, o famoso &ldquo;Quinqu&ecirc;nio Cinza&rdquo;, a Funda&ccedil;&atilde;o do Cenesex, a luta contra a homofobia, a prostitui&ccedil;&atilde;o, o fen&ocirc;meno transexual ou o casamento para todos.<\/p>\n<p><strong>Opera Mundi: Qual era a situa&ccedil;&atilde;o das minorias sexuais em 1959, ap&oacute;s o triunfo da Revolu&ccedil;&atilde;o em Cuba?<\/strong><br \/>Mariela Castro Esp&iacute;n: No in&iacute;cio dos anos 1960, a sociedade cubana era o reflexo de sua heran&ccedil;a cultural, principalmente espanhola. Cuba tinha uma cultura &ldquo;homoer&oacute;tica&rdquo;, patriarcal e, portanto, homof&oacute;bica. Naquela &eacute;poca, o mundo inteiro era patriarcal e homof&oacute;bico, tanto os pa&iacute;ses desenvolvidos como as na&ccedil;&otilde;es do Terceiro Mundo. Em todas as culturas ocidentais baseadas na religi&atilde;o cat&oacute;lica dominante essas caracter&iacute;sticas estavam estabelecidas nos c&oacute;digos culturais da rela&ccedil;&atilde;o homem\/mulher.<\/p>\n<p>No entanto, &eacute; curioso que o processo da Revolu&ccedil;&atilde;o Cubana, em cujo programa pol&iacute;tico se reivindicava a luta contra desigualdades, racismo e diferentes formas de discrimina&ccedil;&atilde;o contra mulheres, al&eacute;m do fim de injusti&ccedil;as e brechas entre a cidade e o campo, n&atilde;o tenha se interessado pelos homossexuais e os considerado v&iacute;timas de discrimina&ccedil;&otilde;es de todos os tipos. A homofobia era a regra inclusive depois do triunfo da Revolu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>OM: Ent&atilde;o ser homof&oacute;bico era algo &ldquo;natural&rdquo;?<\/strong><br \/>MCE: A homofobia era a regra. O que se considerava anormal era o respeito a quem havia escolhido uma orienta&ccedil;&atilde;o sexual diferente. Mas, repito, n&atilde;o era algo espec&iacute;fico de Cuba. A homofobia institucionalizada dos primeiros anos da Revolu&ccedil;&atilde;o refletia essa realidade e estava em conson&acirc;ncia com a cultura da &eacute;poca. Zombar dos homossexuais era algo normal, assim como depreci&aacute;-los ou denegri-los. Era normal discrimin&aacute;-los no mercado de trabalho, em sua vida profissional, e esse era o aspecto mais grave.<\/p>\n<p>A Revolu&ccedil;&atilde;o permitiu ao povo cubano conseguir a soberania nacional e colocou em xeque in&uacute;meros paradigmas, como a virgindade da mulher como condi&ccedil;&atilde;o pr&eacute;via ao casamento, a aus&ecirc;ncia do div&oacute;rcio, o status do homem como chefe da fam&iacute;lia, a fidelidade natural da mulher frente &agrave; infidelidade do homem, a desqualifica&ccedil;&atilde;o da fam&iacute;lia monoparental e da mulher solteira, mas n&atilde;o se interessou pelo problema da diversidade sexual.<\/p>\n<p><strong>OM: Entre 1965 e 1968, o Estado Cubano elaborou as Unidades Militares de Ajuda &agrave; Produ&ccedil;&atilde;o, as Umap, &agrave;s quais os homossexuais foram integrados &agrave; for&ccedil;a. Voc&ecirc; poderia falar sobre esse obscuro epis&oacute;dio?<\/strong><br \/>MCE: Primeiro, conv&eacute;m precisar que as Umap afetavam todos os homens em idade de entrar no servi&ccedil;o militar, n&atilde;o s&oacute; os homossexuais. Alguns, inclusive, falaram de campos de concentra&ccedil;&atilde;o para homossexuais. N&atilde;o creio que seja necess&aacute;rio exagerar, &eacute; preciso ser fiel &agrave; verdade hist&oacute;rica. As Umap afetaram a todo, menos aos que podia justificar [a n&atilde;o integra&ccedil;&atilde;o] com um emprego est&aacute;vel. Os estudantes tinham que colocar entre par&ecirc;nteses a carreira universit&aacute;ria para fazer o servi&ccedil;o militar.<\/p>\n<p>&Eacute; interessante tamb&eacute;m lembrar o contexto da &eacute;poca. Nosso pa&iacute;s se encontrava constantemente sob a agress&atilde;o dos Estados Unidos: a Ba&iacute;a dos Porcos em abril de 1961, a Crise dos M&iacute;sseis em 1962, e os grupos da CIA compostos por exilados cubanos, que multiplicavam os atentados terroristas. As bombas explodiam todos os dias em Cuba, queimavam canaviais, sabotavam as ferrovias, atacavam teatros com bazuca. N&atilde;o se pode esquecer essa realidade, viv&iacute;amos em estado de s&iacute;tio. Grupos paramilitares agiam nas montanhas do Escambray e assassinavam trabalhadores rurais favor&aacute;veis &agrave; Revolu&ccedil;&atilde;o, torturavam e executavam jovens professores que tinham se integrado &agrave; campanha de alfabetiza&ccedil;&atilde;o. No total, 3.478 cubanos perderam a vida por conta do terrorismo naquela &eacute;poca. Foi um per&iacute;odo muito dif&iacute;cil, n&oacute;s nos encontr&aacute;vamos permanentemente agredidos e a luta de classes estava em seu auge. Os latifundi&aacute;rios tinham reagido com muita viol&ecirc;ncia &agrave; reforma agr&aacute;ria e n&atilde;o estavam dispostos a perder sua posi&ccedil;&atilde;o de poder na sociedade. Ent&atilde;o havia uma mobiliza&ccedil;&atilde;o geral para a defesa da na&ccedil;&atilde;o, e neste contexto nasceram as Umap.<\/p>\n<p><strong>OM: Ent&atilde;o porque as Umap foram associadas ao reino do arbitr&aacute;rio e da discrimina&ccedil;&atilde;o?<\/strong><br \/>MCE: Como todos deveriam participar na defesa do pa&iacute;s, grupos marginais, como os hippies, por exemplo, e os filhos da burguesia que haviam se acostumado com uma vida de &oacute;cio e n&atilde;o trabalhavam, pois tinham recursos, tiveram que se integrar &agrave;s Umap. Grupos que n&atilde;o se sentiam comprometidos com o processo de transforma&ccedil;&atilde;o social iniciado em 1959 e preferiam um papel de observador tinham que se integrar e trabalhar nas f&aacute;bricas ou na agricultura.<\/p>\n<p>Reprodu&ccedil;&atilde;o<br \/><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.operamundi.com.br\/media\/images\/gays%20cuba.jpg\" alt=\"\"\/>O ex&eacute;rcito criou ent&atilde;o as Umap para apoiar os processos de produ&ccedil;&atilde;o. Mas a realidade foi outra. O Minist&eacute;rio do Interior tinha a tarefa de identificar esses grupos e integr&aacute;-los &agrave; for&ccedil;a, pois o servi&ccedil;o era obrigat&oacute;rio.<\/p>\n<p>Essas pessoas n&atilde;o tinham uma boa imagem na sociedade cubana, que os recha&ccedil;ava por sua falta de comprometimento na constru&ccedil;&atilde;o da nova na&ccedil;&atilde;o revolucion&aacute;ria, e os considerava parasitas.<\/p>\n<p>Lembro, em minha juventude, de ouvir reflex&otilde;es desagrad&aacute;veis devido &agrave; minha rela&ccedil;&atilde;o familiar com meu tio e meu pai. Alguns diziam: &ldquo;&Eacute; uma menininha&rdquo;, quer dizer, uma &ldquo;filhinha de papai&rdquo;, uma pessoa que gozava de uma posi&ccedil;&atilde;o privilegiada, que n&atilde;o tinha o mesmo padr&atilde;o de vida que o resto por seus v&iacute;nculos familiares. Eu sentia uma raiva terr&iacute;vel cada vez que isso acontecia e me esfor&ccedil;ava para fazer tudo o que os demais faziam, recha&ccedil;ando todo tipo de privil&eacute;gio ou de favoritismo. Nunca suportei esse qualificativo, que era muito depreciativo.<\/p>\n<p><strong>OM: Esse m&eacute;todo de integra&ccedil;&atilde;o era muito arbitr&aacute;rio.<\/strong><br \/>MCE: Conv&eacute;m recordar que o procedimento era arbitr&aacute;rio e discriminat&oacute;rio. Houve vozes na sociedade cubana que se opuseram a essas medidas, entre elas a Federa&ccedil;&atilde;o de Mulheres Cubanas, assim como muitas personalidades. As den&uacute;ncias que algumas m&atilde;es fizeram desataram esse movimento contra as Umap.<\/p>\n<p><strong>OM: E os homossexuais? Foram v&iacute;timas de muitos abusos nas Umap?<\/strong><br \/>MCE: Em uma sociedade homof&oacute;bica, nesse contexto de hegemonia masculina e viril, as autoridades consideraram que os homossexuais sem profiss&atilde;o tinham que ser integrados &agrave;s Umap para serem verdadeiros &ldquo;homens&rdquo;. Em algumas delas, essas pessoas foram tratadas como todos os demais e n&atilde;o foram v&iacute;timas de discrimina&ccedil;&atilde;o. Em outras, onde reinava a arbitrariedade, eles foram separados injustamente dos demais jovens. Havia ent&atilde;o o grupo dos homossexuais e dos travestis, o grupo dos religiosos e dos crentes, o grupo dos hippies, etc. Foi reservado a eles um tratamento especial com chacotas cotidianas e humilha&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas. Em uma palavra, as discrimina&ccedil;&otilde;es que existiam na sociedade cubana se tornaram mais vivas e mais cru&eacute;is nas Umap.<\/p>\n<p>N&atilde;o resta a menor d&uacute;vida de que o processo de cria&ccedil;&atilde;o e de funcionamento das Umap foi arbitr&aacute;rio. Por isso, essas unidades foram fechadas definitivamente tr&ecirc;s anos depois. Mas, repito, a situa&ccedil;&atilde;o dos homossexuais no resto do mundo era similar, &agrave;s vezes pior. Isso, evidentemente, n&atilde;o justifica em nada as discrimina&ccedil;&otilde;es das quais os homossexuais foram v&iacute;timas em Cuba.<\/p>\n<p><strong>OM: Qual era a situa&ccedil;&atilde;o das minorias sexuais no resto do mundo?<\/strong><br \/>MCE: H&aacute; um estudo extremamente interessante de um pesquisador norte-americano chamado David Carter sobre os movimentos LGBT na Am&eacute;rica Latina e no resto do mundo. Por exemplo, no nosso continente, as ditaduras militares perseguiam impiedosamente os homossexuais. Essa realidade, no entanto, n&atilde;o deve nos impedir de analisar criticamente o que ocorreu em Cuba.<\/p>\n<p><strong>OM: Qual foi a responsabilidade de Fidel na cria&ccedil;&atilde;o das Umap?<\/strong><br \/>MCE: Fidel Castro &eacute; como o Quixote. Sempre assumiu suas responsabilidades como l&iacute;der do processo revolucion&aacute;rio. Em raz&atilde;o de seu cargo, considera que deve assumir a responsabilidade de tudo o que ocorreu em Cuba, tanto os aspectos positivos como os negativos. &Eacute; uma posi&ccedil;&atilde;o muito honesta de sua parte, ainda que me pare&ccedil;a n&atilde;o ser justo, pois n&atilde;o deve assumir sozinho todos esses excessos, o que n&atilde;o aproxima da verdade hist&oacute;rica. Era uma &eacute;poca na qual emergia uma nova sociedade com a cria&ccedil;&atilde;o de novas institui&ccedil;&otilde;es, em meio a agress&otilde;es, trai&ccedil;&otilde;es, amea&ccedil;as contra sua vida. Fidel foi v&iacute;tima de mais de 600 tentativas de assassinato. N&atilde;o podia cuidar de tudo e, portanto, delegava muitas tarefas.<\/p>\n<p><strong>OM: Concretamente, qual &eacute; o v&iacute;nculo entre Fidel e as Umap?<\/strong><br \/>MCE: Fidel Castro n&atilde;o desempenhou um papel nesta cria&ccedil;&atilde;o. Na realidade, o &uacute;nico v&iacute;nculo dele com as Umap foi quando decidiu fech&aacute;-las, ap&oacute;s numerosos protestos da sociedade civil, e a investiga&ccedil;&atilde;o levada a cabo a pela pol&iacute;tica das For&ccedil;as Armadas, que concluiu que muitos abusos foram cometidos. A partir dessa data, decidiu-se n&atilde;o incluir os homossexuais no servi&ccedil;o militar para evitar discrimina&ccedil;&otilde;es em uma for&ccedil;a marcada pela homofobia, n&atilde;o apenas em Cuba, mas no resto do mundo. Tamb&eacute;m se poder&aacute; argumentar que se tratava de uma nova discrimina&ccedil;&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o a eles, mas sua incorpora&ccedil;&atilde;o &agrave;s for&ccedil;as armadas foi t&atilde;o nefasta por conta dos preconceitos, que resultou nessa decis&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>OM: Qual era o ponto de vista do seu pai?<\/strong><br \/>MCE: Falei muitas vezes sobre esse tema com meu pai e ele me explicou que era extremamente dif&iacute;cil eliminar os preconceitos sem uma pol&iacute;tica de educa&ccedil;&atilde;o. Por outro lado, o universo militar continua sendo muito machista em Cuba. Lamentavelmente, &eacute; not&oacute;rio que, em nossas sociedades, recha&ccedil;amos tudo o que se mostra diferente. Imagine ent&atilde;o no contexto dos anos 1960. A esse respeito, o Cenesex lan&ccedil;ou um programa de pesquisa sobre as Umap e estamos recolhendo os testemunhos das pessoas que sofreram com essa pol&iacute;tica.<\/p>\n<p><em><strong>Leia as outras tr&ecirc;s partes da entrevista:<\/strong><br \/>2: <a href=\"http:\/\/redirect.viglink.com\/?key=11fe087258b6fc0532a5ccfc924805c0&amp;u=http%3A%2F%2Foperamundi.uol.com.br%2Fconteudo%2Fentrevistas%2F26926%2Fpc%2Bera%2Breflexo%2Bda%2Bsociedade%2Bcubana%2Bmachista%2Be%2Bhomofobico%2Bdiz%2Bfilha%2Bde%2Braul.shtml\" target=\"_blank\">&ldquo;PC era reflexo da sociedade cubana: machista e homof&oacute;bico&rdquo;, diz filha de Ra&uacute;l<\/a><\/em><br \/><em>3: <a href=\"http:\/\/redirect.viglink.com\/?key=11fe087258b6fc0532a5ccfc924805c0&amp;u=http%3A%2F%2Foperamundi.uol.com.br%2Fconteudo%2Fentrevistas%2F26927%2Fmariela%2Bcastro%2Buma%2Bnacao%2Bsocialista%2Bdeve%2Bdefender%2Ba%2Bigualdade%2Bde%2Btodos.shtml\" target=\"_blank\">Mariela Castro: &ldquo;uma na&ccedil;&atilde;o socialista deve defender a igualdade de todos&rdquo;<\/a><\/em><br \/><em>4: <a href=\"http:\/\/redirect.viglink.com\/?key=11fe087258b6fc0532a5ccfc924805c0&amp;u=http%3A%2F%2Foperamundi.uol.com.br%2Fconteudo%2Fentrevistas%2F26928%2Fmariela%2Bcastro%2Bconsenso%2Be%2Bde%2Bque%2Bhomofobia%2Be%2Btransfobia%2Bsao%2Bincoerentes%2Bcom%2Ba%2Brevolucao.shtml\" target=\"_blank\">Mariela Castro: consenso &eacute; de que homofobia e &ldquo;transfobia&rdquo; s&atilde;o incoerentes com a Revolu&ccedil;&atilde;o<\/a><\/em><\/p>\n<\/div>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/pixel.quantserve.com\/pixel\/p-89EKCgBk8MZdE.gif\" border=\"0\" height=\"1\" width=\"1\"\/><\/p>\n","protected":false},"author":1213,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[487],"tags":[],"class_list":{"0":"post-25957","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-breaking-news"},"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rinf.com\/alt-news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25957","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rinf.com\/alt-news\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rinf.com\/alt-news\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rinf.com\/alt-news\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1213"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rinf.com\/alt-news\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25957"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/rinf.com\/alt-news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25957\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rinf.com\/alt-news\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25957"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rinf.com\/alt-news\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25957"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rinf.com\/alt-news\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25957"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}